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Veja agora, compre agora!

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Alma Baiana
Escrito por Alma Baiana

O São Paulo Fashion Week – SPFW inaugurou nessa edição um novo sistema, aproximando a passarela ao calendário do varejo.  O See Now, Buy Now (“Veja Agora, Compre Agora”) tem o intuito claro de suprir uma necessidade de imediatismo em relação ao comportamento de moda que o mundo atualmente experimenta, e a dificuldade dos que não acompanham diretamente a moda, ou não fazem parte da indústria, em entender o calendário em que coleçōes eram comercializadas após seis meses do lançamento. Na instantaneidade das mídias sociais e de uma geração ávida por novidades, faz cada vez menos sentido esperar seis meses para consumir um produto que, com certeza, acabará sendo esquecido.

Na semana de moda de Nova York, marcas como Tom Ford, Burberry, Marc Jacobs, Donatella Versace e Tommy Hilfiger fizeram essa transformação de calendário a partir de  setembro de 2016. A Burberry, inclusive, deixará de nominar suas coleções como “inverno” e “verão”, o que também afirma Paulo Borges, diretor da SPFW, para quem essa nomenclatura já perdeu o sentido há tempos: “As pessoas compram moda por desejo. Não importa se é inverno ou verão”. Se levarmos em conta as mudanças climáticas globais e a diversidade do clima das diferentes regiões brasileiras,  talvez essa seja uma adequação positiva.

Apesar dos entusiastas pelo sistema, existem marcas e organizações que não concordam com a mudança. A Federação Francesa de Costura do Prêt-à-Porter e dos Criadores de Moda se opôs a esse modelo. Para o  presidente do conselho desta organização, o See Now, Buy Now só funciona com marcas que trabalham muito mais o marketing, ao invés de priorizar o estilo e exclusividade em suas criaçōes.

A partir dessa discussão, fomos saber a opinião de alguns estilistas baianos que concentram sua produção em Salvador e que conseguiram visibilidade, desfilando suas marcas em eventos de moda pelo Brasil – o que eles vêm fazendo e como essas mudanças no mercado de moda podem impactar suas produções.

De que forma o sistema “See Now, Buy Now” impacta a produção da marca Villô em se tratando de peças artesanais, que demandam tempo para a elaboração?

 

Villô, por Emilly Dias e Vivianne Pinto:

“A Villô, por ser uma marca de peças exclusivas e completamente artesanais, tem como um diferencial o tempo e a forma de produção de cada peça. Os clientes que buscam as peças artesanais da Villô se encantam com todo o processo manual de produção das peças e valorizam esse tempo de confecção, pois, por serem feitas à mão utilizando uma arte milenar, que é o crochê, as peças se tornam não só exclusivas, mas também agregam em si um valor cultural. O encanto da fabricação de uma peça artesanal em tempos de See Now, Buy Now proporciona ao público as peças da coleção disponíveis para venda  logo após serem desfiladas. O cliente deseja as nossas peça por sua exclusividade, reconhece o tempo que demanda para a fabricação, o que faz a valorização da peça ser ainda maior. A sensação de exclusividade da peça hand made acaba se tornando um diferencial atrativo. Nossa produção não é afetada com a rapidez do mercado e a necessidade extrema de consumo imediato, pois, quando lançamos uma coleção, já disponibilizamos todas as peças para venda na hora do lançamento. Exceto se quiser algo especial, será feito sob encomenda, com o cliente  sendo informado de todos os passos da produção e do tempo de entrega da peça pronta. É importante ressaltar que uma peça artesanal carrega um história e deixa de ser apenas uma roupa e torna-se uma arte”.

Como as empresas podem  preservar o trabalho manual diante do crescimento global e dos processos de terceirização?

Luciana Galeão:

“Desde o início do meu trabalho com moda percebi a função do design muito além de questões estéticas. Não queria somente vestir pessoas, mas, principalmente, tocá-las. Olhar para o resíduo e ver oportunidades foi o que deu origem ao meu trabalho com os mosaicos, quando percebi que os retalhos de couro sintético que sobravam das aplicações de pictogramas que fazia em camisetas tinham um efeito muito mais interessante. A partir daí, iniciei os meus estudos em inovações de técnicas artesanais. A marca Luciana Galeão hoje, além do produto tangível, vende seu conteúdo fazendo capacitações com artesãos para que eles entendam a metodologia e processo de criação,  e também como colunista na rádio Educadora com o programa ModaCult, falando sobre curiosidades do mundo da moda, tecnologia e consumo consciente. Atualmente, além da loja virtual, os produtos da marca são comercializados como peças únicas na Galeria do Convento do Carmo, onde parte da renda é destinada para o projeto de restauração do acervo de arte sacra do Convento, que se encontra fechado há 21 anos.”

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Quais mudanças no direcionamento da marca poderão acontecer, diante dessa mudança no sistema de desfile, voltado para o varejo?

Jefferson Ribeiro:

“Para atender a demanda do See Now, Buy Now é preciso ter um ótimo planejamento de produção. Uma vez que as peças começam a ser vendidas logo após o desfile, então é preciso ter um estoque mínimo a ser ofertado aos clientes ao final dele. Algumas marcas trabalham com os magazines com venda direta após desfile e outras com o e-commerce no sistema de Pré-order, formas diferentes de distribuição com necessidades logísticas diferentes. Nas magazines o cliente encontra a peça pronta pós-show e na venda online ele esperará em torno de 15 dias para receber a peça pronta em casa”.

 

Por: Tininha Viana

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