Entrevista com Jayme Ribeiro, brasileiro que se tornou guia de turismo em Nova York e transformou sua experiência como jornalista em uma carreira dedicada a criar roteiros narrativos que unem história, cultura pop e o cotidiano da cidade.
Em que momento você percebeu que o turismo guiado poderia ir além da simples apresentação de pontos turísticos e virar uma experiência
narrativa?
Isso aconteceu logo depois que eu criei o blog e canal de vídeos A Grande Maçã, há 13 anos. Sou jornalista de formação e trabalhava nessa época como correspondente internacional. Nas horas vagas, mostrava meu cotidiano nas redes. E compartilhava dicas do que fazer na cidade de um jeito
descomplicado. E não é que funcionou? Depois de 2 anos, decidi diminuir o ritmo de trabalho no jornalismo de TV e abrir uma empresa voltada para passeios guiados. A bagagem como repórter me ajudou muito como guia de turismo — afinal, nas duas profissões, contar boas histórias faz toda a diferença, né?
Como você decide o que entra ou não entra em um roteiro tão rico como Midtown, Uptown ou Downtown?
Essa é uma tarefa difícil. Mas o meu lema sempre foi inovar ao montar os roteiros. E tentar apresentar algo a mais, fora do trivial. Claro que os cartões-postais não podem faltar! Imagina só conhecer os segredos, curiosidades, histórias daqueles pontos turísticos tradicionais e também passear por lugares menos conhecidos pelos turistas, mas que são os favoritos dos moradores da cidade?
Qual é o lugar de Nova York que mais surpreende brasileiros por fugir completamente do imaginário turístico?
O bairro West Village é um lugar que sempre surpreende por apresentar o cotidiano do novaiorquino legítimo. É lá que ficam aqueles sobrados antigos com escadas de ferro do lado de fora que funcionam como saídas de emergência. O bairro é mais tranquilo, sem arranha-céus e sem aquele trânsito caótico.

Como é guiar adolescentes em Nova York — o perfil do tour muda muito em relação aos adultos?
Eu adoro trabalhar com esse público. É desafiador, pois os adolescentes são sinceros e não disfarçam quando não gostam. Por isso acho importante falar a linguagem deles.
O que mais prende a atenção dos adolescentes durante um walking tour na cidade?
Sem dúvida, os cenários de filmes e séries são o ponto alto dos roteiros. E, em dúvida, outro diferencial da A Grande Maçã. Assistir as cenas no local
exato em que elas foram rodadas torna a experiência única! Por isso estou sempre com o Ipad junto comigo!
Já teve alguma situação em que adolescentes reagiram de forma completamente diferente do esperado em um cenário famoso?
No zoológico do Central Park, fui supreendido por um abraço de um garoto que ficou emocionado ao assistir a cena do seu filme favorito: Madagascar. E me agradeceu por estar vivendo aquele momento. Já as meninas sempre reagem com gritos eufóricos quando anuncio que estamos chegando na rua da casa da cantora Taylor Swift.
O que adolescentes costumam enxergar em Nova York que os adultos muitas vezes ignoram?
No metrô, eles fazem a festa! Os adultos são mais contidos. Os adolescentes não disfarçam a alegria de entrar pela primeira vez no vagão tão icônico de metrô de Nova York. E por mais curto que seja o trajeto, a viagem sempre vira um acontecimento com direito a muitas fotos e videos para registrar o momento!

Já aconteceu algum imprevisto marcante que acabou virando parte da narrativa do tour?
Sim. O encontro casual com celebridades é sempre marcante. Já avistamos a cantora Lady Gaga tomando chá no Plaza Hotel. O ator Hugh Jackman
andando de bicicleta. E o Woody Allen dirigindo uma cena de um filme no Central Park.
Existe algum ponto da cidade que você diria que conecta diretamente Brasil e Nova York de forma simbólica?
Highline Park por causa dos murais coloridos do artista brasileiro Eduardo Kobra que podem ser avistados do alto do parque suspenso. O parque de 2,5 km foi construído em cima de um trilho de trem abandonado e ficou famoso por misturar arquitetura urbana, obras de arte e natureza.
Qual foi a reação mais inesperada de um brasileiro ao pisar em um cenário famoso de série?
O prédio do seriado Friends, no cruzamento das ruas Bedford e Grove, costuma emocionar bastante os fãs mais nostálgicos. É sem dúvida uma das
esquinas mais fotografadas da cidade. O curioso é que muitos brasileiros ficam decepcionados quando eu conto que apenas a fachada do edifício foi usada nas gravações. Todas as cenas internas foram captadas em estúdio.