Agenda

Festivais online mantêm classe artística em atividade durante surto do coronavírus

Alma Baiana
Escrito por Alma Baiana

Pode parecer estranho manter-se afastado de atividades culturais em um país com tanta potência artística como o Brasil. Mas, com o agravamento do novo coronavírus, a regra é clara: evite aglomerações, fique em casa. E, por isso, shows, festivais, peças teatrais, espetáculos de dança e até mesmo lançamentos cinematográficos foram cancelados ou adiados em todo o mundo – o que não significa que a classe artística esteja completamente paralisada.

Diante dessa atual conjuntura, artistas e técnicos da área cultural têm encontrado nas redes sociais uma forma de manter a arte viva, ao mesmo tempo em que estimulam o estado de quarentena para deter a expansão do vírus. Gravação de lives é a iniciativa mais adotada, possibilitando apresentações ao vivo e gratuitas de maneira que nem o público, nem os artistas precisem sair de suas casas, resultando em verdadeiros festivais virtuais.

Ontem (26), por exemplo, começou a segunda edição do Festival #ZiriguidumEmCasa. Idealizado pelo cantor, compositor e autor Claudio Lins e pelo jornalista Beto Feitosa, o projeto promove transmissões ao vivo direto das redes sociais de cada artista com objetivo de minimizar os efeitos do confinamento, levando música, solidariedade e afeto para as pessoas, incentivando-as a continuarem em casa.

A iniciativa adota o formato do festival português #EuFicoEmCasa, que reuniu apresentações de 30 minutos de quase 80 artistas e alcançou mais de dois milhões de espectadores. “Nós topamos o desafio de fazer isso no Brasil e, enquanto a gente começava a chamar alguns artistas próximos, começaram a pipocar outras propostas semelhantes. A gente logo viu que aquilo seria um movimento interessante. Acho que isso vai começar uma nova forma de relação de músicos com público”, diz Beto Feitosa.

Antes intitulado #FestivalEuFicoEmCasaBR, o agora #ZiriguidumEmCasa teve sua primeira edição na semana passada, quando reuniu 37 artistas, como Ivan Lins, Marcos Valle e Roberta Campos, em quatro dias de apresentações. Nesta edição, que vai até domingo (29), o projeto repete a dose com uma nova programação que conta com nomes como Biquini Cavadão, Lúcio Mauro Filho, Laila Garin e Marcelo Caldi.

“Tentamos montar uma grade com artistas de qualidade no cenário nacional, priorizando a música brasileira. Mas achamos também que, nesse momento, qualquer julgamento qualitativo mais profundo é secundário, uma vez que tantos artistas vieram espontaneamente, no espírito solidário que essa crise exige. Ou seja, estamos fazendo uma curadoria mais afetiva que qualitativa”, explica Claudio Lins.

O cantor acredita que a classe cultural está um tanto sufocada com a queda de opções culturais para a população e a consequente falta de um retorno financeiro. Afinal, artistas “são, antes de tudo, cidadãos com contas para pagar”, lembra. Para ele, ações como festivais virtuais podem trazer certo alívio durante a quarentena e até mesmo estabelecer nova forma de se fazer e consumir arte, complementando as apresentações tradicionais.

“Nada substitui o palco e o contato com o público. Shows e espetáculos presenciais tem características insubstituíveis, caráter social único, e geram renda e emprego de maneira incomparável em relação aos shows virtuais. Temos que sobreviver a isso tudo da melhor maneira possível, para voltarmos melhores e mais fortes”, reflete Lins.

Com toque baiano

O movimento de festivais online tem se expandido pelo Brasil, que já conta com diversos títulos como o #FestivalFicoEmCasaBR, que está promovendo mais de 60 apresentações de cantores brasileiros, como Emicida e Daniela Mercury, desde o último dia 24; o #FestivalMúsicaEmCasa, que reúne cinco shows de artistas como Jão e Léo Santana por dia até domingo (29); e o #TamoJunto, festival criado pelo jornal O Globo que teve sua segunda edição iniciada na tarde de ontem (26) com pocketshows de Fafá de Belém, Alice Caymmi, entre outros.

Na Bahia, esse movimento também vem ganhando força e os baianos têm se tornado, além de meros espectadores, criadores de novos projetos. O Fica Dendi Casa é um exemplo disso, que consiste em uma iniciativa de coletivos, organizações sociais, núcleos de pesquisa, produtoras e artistas, que, juntos, desejam montar um festival estadual de arte, cultura, comunicação e informação.

“A ideia surgiu inspirada nos festivais #EuFicoEmCasa, de Portugal, e o #FicoEmCasaBR, aqui do Brasil. O objetivo é levar arte e cultura de produções baianas para as pessoas dentro de suas casas, mas também fazer com que esse momento seja o menos adoecedor possível”, explicam Vinícius Alves e Yvan Barnei, dupla de organizadores do projeto.

Ao contrário dos outros projetos, que já estão acontecendo, o Fica Dendi Casa está marcado para os dias 16 a 19 de abril e está com inscrições abertas para artistas locais de múltiplas origens, estilos e gêneros interessados em serem parte da programação. De acordo com os organizadores, dezenas de pessoas de Salvador, Simões Filho, Camaçari e Lauro de Freitas já se inscreveram com propostas de apresentações musicais, poéticas e performáticas.

“Nós abrimos as inscrições na terça-feira a noite. Até quarta-feira a noite tínhamos 23 inscrições. Começamos hoje (27) a intensificar a divulgação do formulário para outras cidades além da Região Metropolitana. Vamos tentar construir uma programação com toda diversidade cultural que a Bahia tem a mostrar”, explica a dupla.

Para eles, o maior desafio de montar o projeto está na monetização dessas produções independentes que estão topando colaborar no festival e o festival agora busca patrocínios de empresas e governos. “Neste momento, existe uma demanda real: as artistas e produtoras, sobretudo as de porte pequeno e médio, estão sem renda por estarem concordando e cumprindo o isolamento. É fundamental pensar estratégias para que as pessoas que operam por este setor não fiquem a própria sorte e passando necessidades básicas”, avaliam.

Apesar da problemática, a dupla acredita que, para além de estarem em atividade, os artistas estão mostrando que, neste momento, estão em luta. “Acredito que uma parte da classe artística esteja nos mostrando uma outra cultura democrática possível. Nela que deveríamos apostar quando essa tempestade passar. A cultura não está sufocada, na minha humilde opinião. A cultura e as artistas estão mesmo nesse momento seguindo na resistência e nos apontando um outro país e mundo possíveis”.

Sobre o Autor

Alma Baiana

Alma Baiana

O que acontece de interessante na Bahia: cultura, sociedade, arquitetura, decoração, gastronomia, moda, entretenimento e muito mais!

Faça um comentário