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Mês da Consciência Negra: desigualdades tornam o empreendedorismo das pretas mais vulnerável

Alma Baiana
Escrito por Alma Baiana

Além se ser minoria entre as empreendedoras, as mulheres negras precisam lidar com diversas formas de violência

No Brasil, 8,6 milhões de mulheres são donas de negócios. O número é equivalente a 33,6% do total de pessoas que empreendem no país, uma porcentagem pequena quando comparada à de homens (66,4%), mas que fica ainda menor quando é feito o recorte racial: mulheres negras correspondem a 47% do total de empreendedoras.

Os dados apresentados pelo relatório Empreendedorismo Feminino no Brasil (2021), produzido pelo Sebrae, evidenciam um dos aspectos das desigualdades racial e de gênero existentes no país. E acrescentam mais uma pauta de debate para o Mês da Consciência Negra.

“As mulheres têm dificuldades de empreender por conta do machismo estrutural. E as mulheres negras têm dificuldade dupla, por causa do machismo e do racismo. Além de sermos invisibilizadas, nós não temos muitas oportunidades ao nosso alcance”, desabafa a afroempreendedora Laís Lage, criadora da Saravá Sustentável, que há cinco anos investe no setor de sustentabilidade.

O relatório Empreendedorismo Feminino no Brasil (2021) indica que as regiões Norte e Nordeste concentram as maiores porcentagens de mulheres negras empreendedoras. Na Bahia, estado onde Lage atua, elas correspondem a 82%. Contudo, Laís aponta que aquelas que possuem negócios ligados ao ramo de produtos sustentáveis são negligenciadas.

“As mulheres que ganham destaque no setor são do eixo Sul-Sudeste. Os eventos que abordam a pauta da sustentabilidade, raramente chamam pessoas negras para falar, não há um recorte racial na abordagem feita sobre os negócios ecológicos”, afirma. Segundo ela, esse apagamento é reflexo da apropriação cultural empreendida pelo capitalismo, já que a cosmovisão das comunidades e povos tradicionais é marcada pela relação harmoniosa com os recursos naturais. 

Além da baixa representatividade numérica e invisibilização, o desafio de empreender se torna ainda mais difícil para mulheres negras por conta de condicionantes sociais. No primeiro ano de pandemia, os negócios gerenciados por elas foram os mais afetados. De acordo com um levantamento feito pelo Sebrae, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, 36% dos empreendimentos foram fechados, ainda que temporariamente. 

A pesquisa, que ouviu empreendedoras de todo o país, indica que a impossibilidade de atuar remotamente somada à dificuldade de acesso a crédito foram os fatores que mais contribuíram para esse cenário. O levantamento apontou que 58% das mulheres negras que solicitaram empréstimo tiveram resposta negativa, 25% por possuírem CPF negativados.

“A Saravá participava de muitas feiras e, em algumas delas, já era reconhecida pelo público. Com a pandemia, eu precisei investir mais na internet, em evidenciar as possibilidades de entrega e a segurança que esse modelo teria”, conta Laís Lage sobre como driblou a situação e conseguiu se manter no mercado.

Saravá Sustentável

A Saravá Sustentável (@saravasustentavel) foi idealizada em 2016, quando Laís Lage não conseguia encontrar estabelecimentos em Salvador com apelo voltado à sustentabilidade, que vendessem produtos reutilizáveis do Kit Lixo Zero – estojo com talheres de bambu, canudos de inox, guardanapos de tecido, etc. para evitar o uso de descartáveis na rua.

Só em agosto de 2019 a marca foi lançada. A empresa tem o propósito de mostrar às pessoas que existem alternativas para eliminar o uso de materiais que causem impactos ao meio ambiente. Através de produtos e informações, a marca fortalece a educação ambiental e a economia local, por meio de curadoria com fornecedores soteropolitanos e de outros estados do Brasil.

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