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“O ideal é um contexto inclusivo, diverso e igualitário”, afirma afroempreendedor

Alma Baiana
Escrito por Alma Baiana

Assim como em diversos outros aspectos da sociedade brasileira, o mercado empreendedor é marcado pela falta de diversidade racial. Esse é um dos resultados das desigualdades existentes no Brasil e que pode ser percebido não somente na baixa quantidade dos chamados afroempreendedores, mas principalmente na ausência de produtos e serviços que dialoguem com a identidade negra.

De acordo com o Mapeamento de Comunidades 2020 da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), entre 2015 e 2019, o número de startups no Brasil mais que triplicou, contudo o perfil de fundadores ainda é majoritariamente branco. Em entrevista ao Alma Baiana, o afroempreendedor Átila Lage analisa os impactos da baixa representatividade negra no mercado de soluções em produtos e aponta caminhos para reverter essa realidade.

Lage é Head of Innovation de um aplicativo de intermediação de serviços domésticos, que foi eleito uma das dez melhores startups de Salvador pela Amcham Arena e recebeu, por dois anos consecutivos, o Selo de Diversidade Étnico-Racial da Prefeitura de Salvador. A empresa foi acelerada pelo Sebrae Bahia, compõe a rede Vale do Dendê e está sendo acelerada em uma parceria da Google for Startups com a Vale do Dendê e Qintess

[Alma Baiana] O empreendedorismo ou necessidade de criar as próprias condições de subsistência está presente há muito tempo na experiência negra no Brasil. E hoje, muitos desses negócios informais que surgem pela falta de oportunidade no mercado formal têm sido apontados como empreendedorismo. Quais cuidados você acha que devemos ter ao fazer uso desse termo, e em especial do afroempreendedorismo?

[Átila Lage] São, de fato, termos que existem diversas discussões a respeito. Acredito que todo empreendedor e toda empreendedora são também empresários e empresárias. No entanto, a existência de alguns termos, como o afroempreendedorismo, vem justamente da necessidade de criar um núcleo, que condiz e conflui com vivências e experiências em comuns e que não são encontradas no setor empresarial “convencional”. Com certeza, há uma grande importância de termos esta rede mais semelhante e comunitária. Devemos, sim, nos fortalecer neste nicho. Mas buscar também expansão e ocupação de lugares que também são nossos e precisam de nós, enquanto não alcançamos o ponto ideal em que o cenário empresarial é um lugar inclusivo, diverso e igualitário.

[AB] A falta de diversidade racial na tecnologia é expressa pela ausência ou baixa representatividade de pessoas não brancas. Você acredita que essa configuração interfere nas empresas e produtos que são criados? O que seria diferente se pessoas negras ou indígenas estivessem mais bem representadas nesse mercado?

[AL] Sem dúvidas. Muitas soluções e produtos estão no mercado há anos e, por um reflexo da falta de representatividade de pessoas no mercado formal, estas mesmas soluções não atendem uma parcela significativa da população, ou continuam reproduzindo padrões publicitários que não cabem mais. Um ótimo exemplo é a touca de natação, que existe há muitos anos. Mas que só agora, felizmente, pessoas negras criaram toucas que atendem quem usa dreads e black power.

[AB] De que modo o seu negócio atua para reverter o cenário de baixa representatividade racial no mercado de startups?

[AL] Hoje o quadro societário da Dixx é composto por quatro pessoas negras, sendo uma delas mulher. Mesmo em Salvador, que tem mais de 80% da população negra, somos minoria no cenário empresarial. Nossa cultura é embasada para criarmos uma rede com outras startups lideradas ou compostas por “minorias”. Nós sabemos a importância e o impacto da nossa representatividade e trilhamos caminhos para que as próximas startups ou pessoas, com realidade semelhante a nossa, encontrem mais oportunidades e menos dificuldades neste ecossistema

[AB] Na sua experiência, o que te despertou para o empreendedorismo e, em especial, para empreender com uma visão social e coletiva ancorada no seu pertencimento racial? Em que momento esse tipo de conhecimento lhe foi apresentado? 

[AL] Foi principalmente o incômodo de termos muitas corporações com soluções e produtos no mercado; e poucas empresas que pensem em soluções que vão além do cliente final. Existem outras empresas que fazem intermediação de serviços, assim como a Dixx, mas quantas se perguntam se quem realiza essas atividades está satisfeito com a remuneração, com o ambiente, perspectiva de crescimento, educação? Isso me despertou para desenvolver algo nesse sentido. E isso tudo se tornou mais tangível quando descobri o conceito de afroempreendedorismo e as formas de atuação.

[AB] Quais dicas ou conselhos você daria para um jovem negro que esteja pensando em empreender? Quais são as pessoas ou instituições que podem ser buscadas hoje para capacitações que auxiliem na estruturação desses projetos?

[AL] Primeiro, é preciso entender a sua importância enquanto pessoa negra, a necessidade que temos de ocupar o espaço empresarial e os impactos positivos que as soluções ou produtos propostos trarão. Acredito que este é o primeiro passo. O segundo, é construir uma rede de contatos com pessoas que possuem experiência. Nesse sentido, temos iniciativas voltadas para o afroempreendedorismo, como: Vale do Dendê, Inventivos, Grana Preta, entre outras.

Na foto, Átila Lage (divulgação)

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