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Os efeitos do aquecimento climático na Baía de Todos os Santos

Alma Baiana
Escrito por Alma Baiana

As alterações recentes do clima global têm sido um tema muito debatido, mas pouco é informado sobre o que está ocorrendo em nossa região. Pesquisas realizadas pela Ufba têm quantificado as alterações recentes e futuras do nosso clima regional, e mensurado seu impacto na Baía de Todos os Santos (BTS). As maiores alterações “recentes” do clima ocorreram nos últimos 20 mil anos após a Terra sair de um período glacial com temperatura média global cerca de 5°C mais fria do que a média dos últimos 50 anos. 

Os últimos 10 mil anos compreendem um período interglacial que, de acordo com registros históricos de concentração de gases estufa, deveria já ter atingido um ápice e dado lugar a um novo ciclo de lento resfriamento atmosférico. No entanto, as atividades humanas, mesmo pré-industriais, passaram a emitir maior quantidade destes gases e a temperatura global, ao invés de diminuir, aumentou. Este aumento foi de 0.8°C desde a Revolução Industrial. Pesquisas realizadas por oceanógrafos da Ufba, com apoio da Fapesb e Cnpq, mostram que o clima regional tem se tornado mais quente, mais seco e menos úmido ao longo das últimas seis décadas, e que esta mudança tem sido fortemente sentida no ambiente aquático da BTS. 

Foi verificado que o total de chuva acumulada no ano diminuiu desde a década de 1960, sendo essa redução de 20% em Salvador, 28% em Cruz das Almas e 32% em Feira de Santana. Menores quantidades de chuva no interior do Estado reduziram a vazão média anual dos rios Paraguaçu e Jaguaripe em 40% e 50%, respectivamente. As pesquisas mostram que períodos prolongados de seca no rio Paraguaçu resultam em uma redução das concentrações de fitoplâncton (base da cadeia alimentar) de até 10 vezes, o que gera impacto nos estoques de peixe da baía. A temperatura média anual do ar aumentou cerca de 0.5°C nas últimas cinco décadas em Salvador e no Recôncavo, sendo que se considerado apenas os meses de verão, este aumento foi de aproximadamente 1.6°C. 

Temperaturas do ar mais elevadas, maior evaporação e menores volumes de água doce chegando à BTS causaram elevação da temperatura da água e aumento da salinidade. A salinidade média das águas da baía subiu mais que 1.0 g/kg nas últimas cinco décadas, o que representa o despejo de mais de 10 mil toneladas de sal (cerca de 100 caminhões basculantes) dentro da baía. O aumento progressivo da salinidade tornou a BTS mais salgada que o oceano nos meses de verão a partir da década de 1990. 

Um aumento da aridez regional é previsto para as próximas décadas por vários estudos independentes realizados na Ufba e outras instituições de pesquisa nacionais e estrangeiras, o que deve continuar tornando a BTS mais quente, mais salgada e provavelmente com menos vida marinha.

* Por Guilherme Camargo Lessa, professor do Instituto de Geociências – Departamento de Oceanografia da Ufba

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